A pandemia do coronavírus, com todo o sofrimento e medo causados na população, nos forçou a repensar de que maneira podemos manter alguns serviços essenciais funcionando e, ao mesmo tempo, obedecer as orientações de experts no mundo todo para que os danos sejam minimizados. Um dos serviços mais fundamentais de um país é a educação. Portanto, como é que fica a educação das crianças e adolescentes nesse período e como os pais podem ajudar? E qual deve ser o papel da família no ensino remoto?

Vamos pensar, primeiramente, no contexto de cada um daqueles afetados diretamente pela falta de aulas presenciais:

Crianças e adolescentes: Da noite para o dia, esse grupo foi forçado ao confinamento em plena fase de desenvolvimento motor (para os mais jovens), socioemocional e cognitivo. Muitos estão frustrados com as demandas, sofrendo com ansiedade e confusos sobre o que realmente está acontecendo.

Professores: Para manter o conteúdo das aulas e, principalmente, o contato com as crianças, professores estão trabalhando mais do que nunca e contra o relógio para incorporar novas habilidades (como gravar vídeos e ensinar remotamente) e criar materiais de qualidade que mantenham as crianças engajadas e a continuidade dos conteúdos.

Pais e mães: Com o choque da pandemia, muitos pais e mães estão fazendo home office e precisam entregar resultados em seus trabalhos enquanto, de repente, também têm que estar presentes mais do que nunca para dar suporte às suas crianças durante as aulas online e na hora de realizar as atividades.

Lembrem-se que não estou considerando tantos outros que perderam o emprego, não têm acesso à internet de qualidade e sequer têm mais de um ou dois dispositivos digitais em casa. Para esses, a realidade é infinitamente mais dura.

Contudo, com esse cenário, é perfeitamente natural e esperado que todo mundo esteja sob enorme pressão, mesmo entre aqueles privilegiados. O problema é quando essa pressão é negligenciada ou mal gerenciada e o trabalho tão essencial da educação fica prejudicado. O que as famílias devem fazer diante desse período desconcertante?

A primeira dica é: tenham paciência e empatia.

Nas palavras da diretora executiva do Todos Pela Educação, Priscila Cruz, esse momento pelo qual passamos não tem precedentes e nenhum lugar do mundo tem a solução ideal sobre o que devemos fazer. Isso quer dizer que tivemos que mobilizar recursos e criar procedimentos de um dia para o outro para atender uma demanda gigantesca que não existia antes.

O que isso quer dizer na prática? Quer dizer que um número muito grande de professores teve que aprender a utilizar ferramentas online para disponibilizar conteúdos de forma assíncrona (pré-gravada), além de tempo para conectar com seus alunos de maneira síncrona (online). Isso é um desafio e tanto e demanda enormes quantidades de energia e trabalho árduo de cada um deles. Muitos não se sentem confortáveis diante da câmera e/ou com a vigilância constante das famílias, que, muitas vezes, criticam algumas práticas sem fundamentação pedagógica ou linguística. Lembrem-se que as críticas têm que ser específicas e construtivas, porque é extremamente exaustivo se preparar para o seu trabalho sabendo que, independentemente do quanto você se dedique para tentar alcançar os melhores resultados, muitos vão reclamar de aspectos que fogem do seu controle.

A verdade é que a pressão em cima das escolas com demandas inalcançáveis gera um ambiente nocivo, que afeta a saúde mental de todos os envolvidos. Os professores estão exaustos, as famílias estão sem tempo para ajudar os filhos e muitas vezes cobram soluções divergentes para a escola (uns querem mais atividades, outros querem menos, uns querem aulas bilíngues dadas quase que exclusivamente em português, outros querem maior exposição ao inglês), os gestores tentam oferecer o que é possível e as crianças e adolescentes sofrem com confusão mental, cobranças excessivas e falta de contato social e afetividade.

A segunda dica é: ajustem suas expectativas

Vale lembrar que o que estamos vivendo é uma situação emergencial de ensino remoto. Não é homeschooling ou Educação à Distância (EAD). Logo, muito do que as escolas e os professores estão fazendo é o que é factível no momento dentro do humanamente possível. Não havia estrutura para essa demanda e ninguém havia sido treinado adequadamente. Portanto, precisamos refletir muito sobre o que é alcançável, desejável e o que não deveria acontecer.

Alguns exemplos práticos de um programa bilíngue são os seguintes:

1.  A escola deveria manter a mesma carga horária das aulas presenciais porque os pais continuam pagando o mesmo.

Na verdade, a modalidade de aulas online não é igual e, logo, não consegue replicar muito do que ocorre dentro da sala de aula. Uma aula presencial tem momentos de gerenciamento de sala, de compartilhamento e interação com colegas, de brincadeiras e de movimentação. Tudo isso toma tempo. Essas dinâmicas engajam as crianças e são difíceis ou impossíveis de reproduzir remotamente. Além disso, vídeos e/ou aulas gravadas muito longos são desgastantes e ineficazes para as crianças e adolescentes. Estudos de neurociência demonstram que o cérebro de crianças e adolescentes têm dificuldade em controlar seus impulsos, seu foco e suas emoções. 

2.  A didática e o nível linguístico dos professores são inadequados

         Esse tema é extremamente sensível e exige muito cuidado. Muitos pais e mães, com as melhores intenções, acabam julgando negativamente a qualidade dos professores por diversos fatores. Confundem pronúncia com sotaque, usam elementos pontuais que desconhecem para criticar a didática e generalizam para toda aula. Isso quer dizer que os professores estão isentos de falhas? É óbvio que não. Assim como qualquer profissional de qualquer área, existem aspectos do profissional de um programa bilíngue que demandam prática e aprimoramento. Existem professores que têm muito a aprender e outros que já aprenderam muito sobre determinado assunto ou competência. Porém, é necessário discutir em comunidade, entre gestores, família, crianças e professores, o que é possível fazer agora. Será que uma troca brusca de professor seria a melhor solução em uma época de dificuldades como essa? Será que o que as famílias exigem de mudança está realmente amparado em teorias e práticas pedagógicas e científicas que dizem respeito ao bilinguismo? Precisamos entender que desenvolvimento profissional (didático e linguístico) é um processo e que temos que incentivar e não desqualificar, principalmente nesse momento.

3. A qualidade técnica das aulas está baixa

         As crianças nascidas nos anos 2000 pertencem à Geração Z e aquelas nascidas a partir de 2010 à Geração Alfa. Diferentemente dos adultos nascidos nas décadas de 70 e 80 (e até início dos anos 90), a tecnologia digital faz parte do cotidiano e funciona como extensão do próprio corpo dessas novas gerações. Dispositivos como celulares, tablets e facilidades como acesso à internet, vídeos e videogames formam um dos alicerces da realidade das crianças da Educação Infantil e do Ensino Fundamental. Nesse contexto, é natural que as crianças julguem os vídeos criados pelos professores como materiais de baixa qualidade. A insatisfação muitas vezes vem delas mesmas ou pode ser reflexo das demandas dos pais. Lembrem-se que muitos professores não têm equipamentos de ponta para a gravação de vídeos. Muitos não têm habilidade com edição de imagens e captação de áudio. Muitos sequer têm microfone de lapela, tripé ou um apoio para a câmera, um espaço adequado para a gravação, com silêncio e boa iluminação entre muitas outras coisas. No entanto, a evolução que tenho acompanhado de professores ao longo do tempo é nítida. Eles estão entregando o seu melhor dentro do possível e precisam contar com o apoio de todos.

A terceira dica é: procurem entender e facilitar o processo

         Um vídeo de 10 minutos produzido por um professor precisa de quanto tempo para chegar na plataforma na qual o seu filho terá acesso? Entre gravar e regravar, interromper por causa de barulho e retomar a filmagem, editar, renderizar o vídeo, fazer upload no drive, enviar para o feedback do coordenador ou mentor, receber de volta com observações, ter que refazer alguns trechos e repetir todo o processo para, enfim, compartilhar o link na plataforma, colocar a descrição e o objetivo do vídeo, a média de tempo gasto para um vídeo desse tamanho pode ser de 6 a 15 vezes maior do que o próprio vídeo. Isso quer dizer inúmeras horas de trabalho no fim do dia.

A questão do vídeo é um exemplo prático de como muitas vezes não enxergamos as diferentes etapas quando simplesmente focamos no produto final. Vamos entender outras questões frequentes dos processos de um programa bilíngue:

Os professores precisam falar em português para que os pais entendam e possam ajudar seus filhos

O propósito central de um programa bilíngue é o de oferecer maior exposição à segunda língua (inglês, no nosso caso) de forma que os alunos fiquem imersos no idioma. Isso quer dizer uma carga horária maior em relação às aulas regulares de inglês e que o principal meio de comunicação durante as aulas é a língua inglesa. Quando os pais exigem que os professores utilizem mais português que inglês, eles acabam interferindo negativamente no eixo mais fundamental do programa. É essencial entender que os alunos não devem ser ajudados a cada passo do processo de aprendizagem. Muitos pais ficam frustrados quando os filhos dizem que não estão entendendo nada e acham que sua intervenção vai ajudar. O custo dessa “ajuda” pode ser a perda de qualidade e de propósito do programa bilíngue. No fim das contas, ainda que existam dificuldades ao longo do caminho, as crianças vão adquirindo a segunda língua de maneira natural e incremental. Se entenderam somente 7% da primeira e da segunda aulas, na próxima vão entender um pouquinho mais e assim sucessivamente.

As crianças não estão aprendendo nada ou não estão progredindo

Tanto o processo de aquisição quanto o de aprendizagem de um idioma levam tempo. As crianças mais jovens, da Educação Infantil, precisam rever os conteúdos inúmeras vezes para consolidarem o conhecimento no cérebro. As aulas que podem parecer extremamente repetitivas e com cara de brincadeira têm um propósito pedagógico claro baseado em estudos acadêmicos e referências na educação. Para aqueles que desejam entender um pouco mais do embasamento teórico-científico, sugiro que procurem os conceitos propostos por Jean Piaget, Loris Malaguzzi, Maria Montessori, Lev Vygotsky e Jerome Bruner. Um exemplo é a percepção de que a criança não consegue produzir as palavras oralmente. Isso não quer dizer que ela não tenha compreendido a palavra e até as estruturas gramaticais ao redor da palavra. Demonstrar compreensão, intenção e ação durante as aulas são evidências que mostram aos professores que as crianças estão no caminho certo.

Todas as aulas deveriam ser síncronas (aulas ao vivo)

As aulas online têm seu propósito e devem ter seu espaço. É nelas que os professores conseguem estabelecer um vínculo afetivo maior com as crianças, garantir maior interação e responder mais efetivamente às respostas e estímulos dados pelos alunos em tempo real. No entanto, aulas síncronas não permitem uma série de coisas igualmente importantes na modalidade de aulas remotas. As aulas síncronas dependem muito da qualidade da conexão, o que normalmente significa resolução mais baixa de vídeo e áudio, requerem uma proximidade maior junto à tela dos professores, o que impede a criação de cenários lúdicos e a utilização de linguagem não-verbal, além de promover uma sensação de mesmice ainda maior. Com aulas assíncronas, os professores podem editar os vídeos, adicionar efeitos, filmar em locais diferentes da casa e utilizar objetos com maior facilidade, podem enquadram melhor o corpo (ao invés de só os ombros, o pescoço e a cabeça, como na aula síncrona) e podem usar toda a linguagem corporal para expressar significados. As aulas gravadas dão mais flexibilidade a todos os envolvidos. Se os alunos, por qualquer motivo, não conseguirem estar presentes em determinado horário, é possível assistir às aulas em outro momento. Também é possível pausar e rever quantas vezes forem necessárias, o que cria um recurso importante de diferenciação. O ideal, portanto, é combinar aulas assíncronas com síncronas.

Depois das indagações feitas acima, afinal de contas, qual é o papel da família? Eu acredito que seja de aprendizado e de conciliação. A compreensão de que o envolvimento da família é essencial para o sucesso do ecossistema escolar precisa estar na mente dos pais e cuidadores. A família pode e deve exigir das escolas e dos professores, mas com embasamento e entendimento do seu papel na aprendizagem de suas crianças. O que isso quer dizer?

  1. Não critiquem tudo o que as escolas estão oferecendo sem saber exatamente como funcionam os processos. Conversem de maneira amigável e construtiva com os gestores e, principalmente, com os professores para alcançar um consenso. Cobrem o que acharem que deve ser cobrado, mas lembrem-se do momento e do esforço monumental de todos.
  2. Não interfiram demais na aula de suas crianças. Lembrem-se que elas precisam construir o conhecimento e criar mais autonomia. Não dê as respostas durante as aulas! O importante não é acertar, mas, sim, aprender. Não demandem da escola aulas mais conteudistas, em português e com duração além do que o modelo remoto atual permite.
  3. Entendam o papel das aulas síncronas (ao vivo) e também das aulas assíncronas (gravadas). Os dois momentos são importantes.
  4. Aprendam mais sobre metodologias ativas, ludicidade, bilinguismo, CLIL, inteligência emocional, mindfulness e design thinking. Esses conceitos podem dar uma visão mais ampla do que o ensinar moderno engloba.

O momento é desafiador e sofrido, sem dúvidas. No entanto, apesar de todos os possíveis danos à educação (e eles vão existir), talvez devêssemos focar no como e no porquê da educação ao invés de no o quê. Em vez de exigirmos a reprodução de modelos antigos, baseados na nossa percepção particular do que deve ser o ensino como um todo e, especialmente, o ensino de inglês, podemos aproveitar essa ferida aberta para estudar mais como os países de sucesso fazem, o que as perspectivas pedagógicas propõem, a diferença entre abordagem, metodologia e técnica, a razão da exposição mais longa à segunda língua, o papel das rotinas e da ludicidade no processo de aprendizagem infantil e por aí vai. Se o nosso foco sempre estiver no conteúdo e o quanto dele foi perdido nesse período, perderemos a chance de repensar a forma e a razão de ser da educação. Perderemos a oportunidade de repensar o lugar da ética, da inteligência emocional, do aprender a aprender, do desenvolvimento de competências necessárias ao mercado de trabalho e, sobretudo, à vida saudável do corpo e da mente.

Lembrem-se do seguinte: os conteúdos mudam com uma velocidade impressionante e estão cada vez mais disponíveis em diversos meios e plataformas. O que está em escassez não é o conteúdo, mas, sim, o que fazer com esse conteúdo para transformá-lo em conhecimento, que gera habilidades, as quais, com o tempo, vão criar competências. O produto mais nobre da educação é a possibilidade de transformação do indivíduo e sua capacidade de adaptação diante de desafios que ainda nem surgiram. A nossa educação é falha e tem produzido resultados muito baixos em rankings nacionais e internacionais. Com a fratura exposta do nosso sistema educacional, agora é o momento de união e conciliação entre pais, gestores, alunos e professores. Precisamos repensar nossa relação, entender as complexidades e defender o nosso bem mais precioso para que sobrevivamos à pandemia e, de fato, comecemos a transformar a educação.