O tsunami social provocado pela crise do coronavírus atingiu, de uma ou de outra maneira, a todos nós. Sistemas políticos, econômicos e de saúde, formas de vida e relacionamento, e alguns dos pilares tidos como inamovíveis no nosso modelo de civilização, entraram em colapso. Como não poderia deixar de ser, a educação, sensível às mudanças por ser uma das expressões fundamentais do ser humano e da sociedade, também se viu afetada de forma substancial. Com isso, cresce a necessidade de desenvolver um olhar ao educador no distanciamento social.

 Instituições educacionais, do ensino superior ao ensino básico ou infantil, públicas ou privadas, comunidades escolares inteiras, foram surpreendidas por uma crise até então impensada e imprevisível. A escola mudou-se para as residências, que se tornaram salas de aula, pátios de recreio, bibliotecas e espaços de construção do conhecimento. Os quadros das salas de aula deram lugar aos tablets e computadores e o olho no olho, o abraço e o sorriso presencial, às telas frias e distantes. Os pais, professores e gestores de aprendizado. E tudo isso num curtíssimo espaço de tempo.

Todos nós, professores, gestores, estudantes e famílias, nos vimos obrigados a repensar métodos, a rever estratégias e firmar um pacto educativo com novos papéis. Empurrados pela urgência do momento e pelas circunstâncias históricas, passamos a ter consciência de que, de muitas das decisões que tomarmos agora, dependerá um futuro novo e esperançado ou um desastre educacional e humano sem precedentes. Faremos bem o nosso para casa? A responsabilidade é tremenda!

Tudo vai mudar ou o que vai mudar? Quais serão as novas competências, no momento atual e de cara ao futuro, do gestor educacional (seja diretivo ou professor)? Partindo do pressuposto de que gerenciar é gerir (gestão de rotinas) e gerar (criação de perspectivas novas), quais as mudanças que já se descortinam para a escola e os educadores num futuro próximo? E quais permanecerão do atual modelo?

Permito-me fazer algumas breves considerações, no intuito de ajudar na reflexão e tomada de decisões dos gestores/professores, a partir do distanciamento social e desse momento novo que estamos vivendo.

  1. O ponto de partida. A partir da vivência que estamos tendo na nova realidade, algumas perguntas são fundamentais: existe só um jeito certo de viver? Um jeito único de educar? Outra existência é possível? Para responder a essas questões, precisamos entender os novos cenários que se descortinam a partir da crise na qual nos encontramos. Essa é uma tarefa fundamental, se quisermos ter a clareza necessária de onde estamos, quais os desafios que nos são colocados e como poderemos contribuir a dar as respostas adequadas. É preciso ter as coisas claras para reorganizar o caos. Estude e tome decisões!

2. O gestor educacional precisa se reinventar. A pandemia, que está funcionando como um acelerador de mudanças, está a exigir do gestor educacional, professor ou não, uma reinvenção de si mesmo, das suas atitudes e do seu profissionalismo. Isso deve começar pelo autoconhecimento, pelas próprias potencialidades e passar pelo desenvolvimento de habilidades sócio emocionais e outras competências, necessárias no cenário atual e no futuro. Flexibilidade mental, atitude de aprendizado contínuo, resiliência e empatia na relação com os colegas, os estudantes e suas famílias, farão parte das habilidades do gestor educacional do futuro. Recupere a sua autonomia, pense outros modelos possíveis de educação, seja proativo e colaborador. Conheça-se e reinvente-se!

3. Necessidade de refundar valores. A nova situação está nos levantando algumas interrogações nesse sentido: o que é sucesso e fracasso, na vida e na escola? Qual deve de ser a nova relação com as pessoas, com o tempo, com os espaços e a natureza?  Combata a distopia, faça parte da turma dos utópicos, como sanidade mental num mundo adoecido e sem horizontes. Passe de procurar e estimular o sucesso individual ao respeito mútuo e relações justas. Construa novos caminhos, nos quais a empatia e a solidariedade tenham a palavra maior. Seus estudantes e a sua instituição educacional lhe agradecerão muito. Refunde-se com fundamentos sólidos.

4. Valorize a tecnologia e aproveite as suas potencialidades. Atualize-se, busque novos conhecimentos e faça dobradinha, sempre, com as ciências humanas. Não esqueça que o ponto central é o bem e o desenvolvimento do ser humano. Cuide para que a tecnologia não invada a sua privacidade, a ponto de torna-lo manipulável e previsível. Você poderá usar a Inteligência Artificial, mas não esqueça que a consciência é sua, e é ela que deve comandar. Aprenda a aprender o novo!

5. Trabalhe sempre em equipe e revejas as suas parcerias. Pode ser que algumas das suas parcerias já estejam ultrapassadas e não respondam aos desafios atuais. Largue-as e vá enfrente! Procure novas, mais adequadas e coerentes com o seu propósito e planejamento. Trabalhe sempre de forma colaborativa, dê o melhor do seu saber e agir aos seus colegas e construa junto com eles. Uma equipe é sempre melhor do que um amontoado e é na partilha dos saberes que está a possibilidade real de avançar. Colabore positivamente!

Claro que outras muitas perguntas ficam, tais como: qual será o modelo de gestão que será necessário a partir da crise pandêmica? Quais os vetores imprescindíveis para o futuro da educação? Têm as escolas pequenas e medianas, maiores chances de sobrevivência do que as grandes, nesse novo cenário? Vão se desenhando já as escolas do futuro?

Muitas perguntas, grandes desafios para os novos gestores da educação. Em qualquer cenário, sempre será necessário manter a humildade para aprender e a coragem para decidir.

Francisco Morales Cano

Belo Horizonte, 8 de maio de 2020

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